Leiam a minha nova entrevista para o site São Paulo Review - As omissões históricas da genialidade negra




* Por Angelo Mendes Corrêa e Itamar Santos*
Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), Carlos Eduardo Machado Dias é professor, escritor e palestrante com extensa atuação no movimento negro brasileiro. Suas pesquisas têm-se voltado, primordialmente, para a ciência e a tecnologia africanas. Pela editora DBA, em coautoria com Alexandra Baldeh Loras, acaba de lançar o livro Gênios da Humanidade – Ciência, Tecnologia e Inovação Africana e Afrodescendente, no qual históricas omissões sobre a cultura negra são trazidas à tona, questionando as raízes do pensamento racista. Leia entrevista que concedeu à São Paulo Review.
Como se constitui o pensamento racista? O racismo é discriminação e preconceito contra pessoas, com base na sua pretensa raça ou etnia. A ideologia subjacente às práticas racistas muitas vezes inclui a idéia de que os seres humanos podem ser subdivididos em grupos distintos, que são diferentes em seu comportamento social e capacidades inatas e que podem ser classificados como inferiores ou superiores. A escravidão transatlântica, patrocinada pelos europeus e seus descendentes na América, é o exemplo clássico do racismo institucionalizado, que levou à morte de milhões de pessoas, com base na sua raça e também realizou o maior deslocamento humano da história. Carlos Moore, intelectual cubano, afirma que o racismo surgiu na Índia e está registrado na mais antiga obra da trilogia de livros sagrados indianos, chamados de Vedas, o Rig-Veda, e é ilustrativo de um fenômeno recorrente na literatura religiosa dos povos euro-asiáticos e semitas que, invariavelmente, evocam a raça negra em duplo contexto de conflito e malefício. Nesse sentido, o Rig-Veda foi composto entre 1000 e 500 a.C. e nele se encontram os relatos épicos da invasão da Índia pelas populações arianas, cerca de 1500 a.C., com a conseqüente destruição da grande civilização harapana, do Vale do Indo (Mohenjo-Daro, Chanhu-Daro, Harapa). A autodenominação dos povos procedentes do sul do Irã e da Ásia Central, é arri ou ária (traduzido por: “gente da pele nobre”) e que seus oponentes, os negros dravidianos, são designados globalmente de dasyu (denominação coletiva para negros) ou anasha (gente do nariz chato). Assim, o Rig-Veda relata que Indra, suposto líder dos invasores arianos, logo transformado em semi-Deus, ordenou a seus súditos guerreiros para destruir o dasyu e eliminar a pele negra da face da Terra. Embora os conceitos de raça e etnia sejam considerados separados na ciência social contemporânea, os dois termos têm uma longa história de equivalência, tanto no uso popular, quanto na literatura das ciências sociais mais antigas. Etnicidade é frequentemente usado em um sentido próximo ao tradicionalmente atribuído à raça: a divisão de grupos humanos com base em qualidades assumidas como essenciais ou inatas ao grupo (por exemplo, ancestralidade compartilhada ou comportamento compartilhado). Portanto, o racismo e a discriminação racial são frequentemente usados para descrever a discriminação em base étnica ou cultural, independentemente dessas diferenças serem descritas como raciais. De acordo com uma convenção das Nações Unidas sobre a discriminação racial de 1950 (em diante), não há distinção entre os termos discriminação racial e étnica. A convenção da ONU conclui ainda que a superioridade baseada na diferenciação racial é cientificamente falsa, moralmente condenável, socialmente injusta e perigosa e não há justificativa para a discriminação racial em qualquer lugar, na teoria ou na prática. A ideologia racista pode se manifestar em muitos aspectos da vida social. O racismo pode estar presente em ações sociais, práticas ou sistemas políticos (por exemplo, apartheid, na África do Sul e as leis Jim Crow, nos EUA, assim como o genocídio indígena, no continente americano) que apóiam a expressão de preconceito ou aversão em práticas discriminatórias. As ações sociais associadas podem incluir nativismo, xenofobia, alteridade, segregação, hierarquização, supremacismo e fenômenos sociais relacionados.
A que se deve a ocultação da civilização africana por pensadores ocidentais? A construção da ordem mundial branca, a partir do século 16, na conhecida Era das Grandes Navegações, onde os europeus progressivamente dominaram praticamente todo o mundo, não sem resistência, e impuseram um sistema político, econômico, religioso e social ao planeta. A história foi reescrita e ocultou-se o legado africano das ciências, construindo um imaginário do berço grego. Ora, se há um berço grego da civilização européia que se vê como universal, quem são o pai e a mãe? Criou-se uma idéia de que a humanidade é dividida em raças e fez-se uma hierarquia racial, onde o homem branco está no topo, que inicialmente teve explicação religiosa cristã e, posteriormente, foi utilizada a ciência para justificar a desigualdade, a escravidão, o colonialismo e o racismo antinegro e antiindígena.
Quais as principais contribuições africanas no campo da ciência, tecnologia e inovação? São muitas mas vou elencar algumas: Matemática: A história da matemática é tão eurocêntrica que a maioria dos relatos de sistemas matemáticos antigos parecem começar e terminar na Grécia. Mas o osso de Lebombo, encontrado na Suazilândia, e o osso de Ishango, descoberto na fronteira entre Uganda e antigo Zaire (atual República Democrática do Congo), ambas fíbulas de babuíno, são os dois objetos matemáticos mais antigos do mundo – os primeiros com pelo menos 35 mil anos de idade. O osso de Ishango, de 20 mil anos de idade, pode ser a tabela mais antiga de números primos. Agricultura – café: Etiópia é o berço do café. No século X, os povos nômades etíopes de montanha foram os primeiros a reconhecer o efeito estimulante do café, embora comessem diretamente as cerejas vermelhas e não o bebessem como bebida. Os místicos peregrinos sufis do Islã espalharam o café por todo Oriente Médio. Do Oriente Médio, esses grãos se espalharam para a Europa e, em seguida, em todo o seu império colonial, incluindo a Indonésia e as Américas. Agricultura – manteiga de karité: Esta a gordura esbranquiçada ou de cor de marfim, extraída da castanha do karité africano é conhecida na forma de hidratante corporal, bálsamo ou loção e cresce em 19 países africanos. No Egito de Cleópatra, haviam caravanas transportando potes de barro com manteiga de karité, valiosa para uso cosmético. As camas funerais dos primeiros reis foram esculpidas na madeira de árvores de karité. O cuidado da pele e as propriedades curativas da manteiga de karité foram aproveitados pela primeira vez há milhares de anos. Até hoje, a manteiga de karité continua a ser usada para proteger o cabelo e a pele no sol forte e dos ventos quentes dos desertos africanos e savanas, espalhando-se pelo mundo. Informática: A República Democrática do Congo detém metade das reservas mundiais de cobalto, usadas para fabricar baterias recarregáveis, como as usadas em celulares. A RDC está entre os maiores produtores mundiais de cobalto, cobre, diamantes, tântalo e estanho. Filosofia – Ubuntu: Diante da crise dos refugiados, a palavra ubuntu nunca foi tão importante. Popularizada pelo Arcebispo Desmond Tutu e Nelson Mandela como uma forma de curar a África do Sul pós-apartheid, a antiga palavra bantu encapsula a idéia de humanidade compartilhada: “Eu sou, porque nós somos.” Veja como a New World Encyclopedia define a palavra que também é usada em Uganda, Tanzânia, Burundi e Zimbábue: “Isso implica uma apreciação das crenças tradicionais e uma consciência constante de que as ações de um indivíduo hoje são uma reflexão sobre o passado e terão consequências de longo alcance para o futuro. Uma pessoa com ubuntu sabe seu lugar no universo e, consequentemente, consegue interagir harmoniosamente com outros indivíduos.”
Qual a importância da África no campo da escrita e do ensino? O uso de estimativas, apoiadas por evidências genéticas, arqueológicas, paleontológicas e outras sugere que a língua provavelmente surgiu em algum lugar da África subsariana, durante a Idade da Pedra, daí as primeiras palavras de humanos terem sido faladas por africanos. As ciências sociais em África, incluindo a educação, têm uma longa história. A Casa da Vida (em egípcio: Per Ankh) era o nome dado à instituição existente no antigo Egito, dedicada ao ensino no seu nível mais avançado, funcionando igualmente como biblioteca, arquivo e oficina de cópia de manuscritos. Em 295 a.C., a Biblioteca de Alexandria foi fundada no Egito. Era considerada a maior biblioteca do mundo clássico. A Universidade Al-Azhar, fundada entre 970 e 972, como uma madrassa, é o principal centro da literatura árabe e da aprendizagem islâmica sunita no mundo. Três escolas filosóficas no Mali existiram durante a época de ouro do país, entre os séculos 12 e 16, a Universidade de Sankoré, a Universidade de Sidi Yahya e a Universidade de Djinguereber. No final do reinado de Mansa Musa, no Mali, a Universidade de Sankoré tinha sido convertida em uma universidade com as maiores coleções de livros na África, desde a Biblioteca de Alexandria. A Universidade de Sankoré era capaz de abrigar 25.000 estudantes e tinha uma das maiores bibliotecas do mundo, com cerca de 1000.000 manuscritos. A cidade de Timbuctu era o centro principal da cópia do livro, de grupos religiosos, das ciências e das artes.
E no campo da matemática, física, medicina e astronomia? Artefatos pré- históricos descobertos na África, datados de 35 mil anos, sugerem tentativas de quantificar o tempo. O osso de Ishango, encontrado perto das cabeceiras do rio Nilo (nordeste do Congo), consiste em uma série de marcas de registro esculpidas em três colunas que percorrem o comprimento do osso. As interpretações comuns são de que o osso de Ishango mostra a demonstração tida como a mais antiga das sequências dos números primos ou de um calendário lunar de seis meses. O osso de Ishango pode ter influenciado o desenvolvimento posterior da matemática no Egito. A aritmética egípcia também fez uso de multiplicação por dois.Os povos africanos fizeram as primeiras e mais importantes invenções científicas e continuaram a fazer invenções desde a Antiguidade até à Idade Média. As primeiras ferramentas, o uso mais antigo do fogo e o uso mais antigo de números são todos da África. As pessoas na África começaram a fazer suas próprias ferramentas de pedra cerca de dois milhões de anos atrás, antes mesmo de evoluírem seus grandes cérebros.Os povos em África inventaram o fogo, aproximadamente 50 mil anos atrás. Aproximadamente 200 mil anos atrás, os seres humanos evoluíram no leste da África. Essas pessoas inventaram a carroça como mostram pinturas rupestres na Líbia. Por volta de 4800 a.C. as pessoas no Sudão construíram círculos de pedras eretas, que podem ter marcado eventos astronômicos como as estações do ano.  Os egípcios foram os primeiros a desenvolver um calendário de 365 dias e 12 meses. Era um calendário estelar, criado observando as estrelas. Médicos egípcios antigos eram conhecidos por suas habilidades de cura e alguns, como Imhotep permaneceram famosos muito tempo depois de suas mortes. Heródoto observou que havia um alto grau de especialização entre os médicos egípcios, com alguns tratando apenas a cabeça ou o estômago, enquanto outros eram oftalmologistas e dentistas.Viajantes europeus na região dos Grandes Lagos (Uganda e Ruanda), durante o século 19, observaram operações de cesariana. A mãe era anestesiada com vinho de banana e misturas de ervas eram usadas para incentivar a cura. Pela natureza bem desenvolvida dos procedimentos utilizados, os observadores europeus concluíram que vinham sendo empregados há muito tempo. Para a construção das pirâmides, os antigos egípcios tiveram que transportar pesados ​​blocos de pedra e grandes estátuas pelo deserto. Eles colocaram os objetos pesados ​​em um trenó que os trabalhadores puxavam sobre a areia e na frente jogavam água e molhavam o caminho, para facilitar a tração, fato comprovado recentemente pela Universidade de Amsterdã.
O comércio internacional nasceu no continente africano? As raízes africanas no comércio são milenares. A África foi o fornecedor principal do ouro no comércio mundial durante a idade medieval. Os impérios africanos tornaram-se poderosos controlando as rotas comerciais transarianas. Eles forneceram dois terços do ouro na Europa e no Norte da África. O dinar almorávida e o dinar fatimída foram impressos em ouro dos impérios sahelianos. O ducado de Gênova e Veneza e a florim de Florença também foram impressos em ouro dos impérios sahelianos. Quando as fontes de ouro foram esgotadas no Sahel, os impérios se voltaram para o comércio com o Reino Ashanti. Os comerciantes Suaíli, na África Oriental, foram os principais fornecedores de ouro para a Ásia, no Mar Vermelho e nas rotas comerciais do Oceano Índico. As cidades portuárias comerciais e as cidades-estados da costa africana oriental estavam entre as primeiras cidades africanas a entrar em contato com exploradores e marinheiros europeus durante as grandes navegações. Muitos foram documentados e elogiados nas gravações do explorador norte-africano Abu Muhammad ibn Battuta. Numerosos objetos metálicos e outros itens foram usados como moeda na África: búzios, sal, ouro (pó ou sólido), cobre, lingotes, correntes de ferro, pontas de lanças de ferro, facas de ferro e pano. O cobre, na África, era tão valioso quanto o ouro. O cobre não era tão difundido e era mais difícil de adquirir do que ouro, exceto na África Central. E havia outros metais valiosos, como o chumbo e o estanho. O sal também foi tão valioso quanto o ouro. Devido à sua escassez, foi usado como moeda.Reinos Suaíles, da Idade Média, são conhecidos por terem ilhas portuárias comerciais e rotas de comércio com o mundo islâmico e Ásia e foram descritos por historiadores gregos como metrópoles. Os portos famosos do comércio africano, tais como Mombaça, Zanzibar, Mogadíscio e Quiloa eram conhecidos dos marinheiros chineses, como Zheng He, assim como por historiadores islâmicos medievais, como o viajante islâmico Berbere Abdullah ibn Battuta. O dhow era o navio do comércio usado pelos suaíles e era enorme. Foi um dhow que transportou uma girafa para a corte do imperador chinês Yong Le, em 1414.
Que papel tiveram as mulheres, dentre elas Hipácia de Alexandria, para a história da ciência no continente africano? Mulheres africanas desenvolveram uma técnica pouco divulgada para cortar e arranhar a pele com pedras afiadas, galhos, espinhos, lascas de cristal ou facas e, em seguida, polvilhando as feridas, estimularam seus corpos para criar anticorpos para resistirem às doenças. As mulheres africanas inventaram perucas, produziram espelhos polidos feitos de cobre, joalheria, fizeram perfumes e perfumaram óleos e pomadas, usanda henna para pintar as unhas e mãos. Durante quinze séculos, Hipácia foi considerada a única cientista feminina da história. Ela é a primeira mulher cientista, cuja vida está bem documentada. Ela era egípcia e, portanto, de origem africana. Parece que, contrariamente aos costumes das mulheres gregas da época, permaneceu solteira e viveu livre e publicamente de suas atividades científicas, lecionando matemática, filosofia, física e astronomia. Escreveu tratados importantes sobre álgebra e seções cônicas. À Hipácia é creditada a concepção de um astrolábio, instrumento para medir o nível da água e um hidrômetro. Hipácia se recusou a se converter ao cristianismo e em 415 d.C. foi brutalmente assassinada por fanáticos cristãos.
É possível avaliar a dimensão do retrocesso gerado pela eleição do atual presidente norte-americano? O conservadorismo de Donaldo Trump e faz escola. Sua forma de governar, na minha visão, pode levar o mundo para uma catástrofe por ser belicista e nem um pouco diplomático.
A democracia racial é fato ou mito no Brasil? É um mito, porque você não identifica seu opressor. Nos EUA e na África do Sul era mais fácil, porque começavam pelas leis Jim Crow e o apartheid. A primeira reivindicação: o fim das leis racistas. Depois, a luta para implementar políticas públicas que busquem a promoção da igualdade racial. Aqui é mais difícil, porque não havia lei nem para discriminar, nem para proteger os negros. A Constituição de 1988 diz que o racismo é um crime inafiançável. Antes disso, tínhamos a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a prática do racismo não era um crime, mas uma contravenção. A população negra e indígena viveu muito tempo sem leis para discriminar ou para proteger. O racismo daqui é o mais perverso do mundo.Quando a Fundação Perseu Abramo fez uma pesquisa, em 2003, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. A maioria, 87%, disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: “você é racista?” e apenas 4% afirmaram que sim. Significa que há racismo, mas sem racistas. Como você vai combater isso? Muitas vezes o branco chega a dizer ao negro que reage: “você é que é complexado, o problema está na sua cabeça”. Ele rejeita a responsabilidade e a coloca na própria vítima. O professor Kabengele Munanga, da Universidade de São Paulo, diz que o racismo brasileiro é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo. Quem praticou não tem nenhum problema, fica impune.
Que antídotos contra o racismo podemos adotar cotidianamente? Falar sobre o assunto, se abrir, estudar, se colocar no lugar do outro, abolir o tabu, assumir o privilégio e colocar o branco no centro da questão, quebrando o silêncio. Mexer na ferida para curá-la. A riqueza no nosso país foi construída com base na escravidão dos indígenas e africanos. É necessário admitir a vantagem e o prestígio de ser branco no Brasil, que os brancos aprendem a ser racistas por construção social e têm privilégios simbólicos e materiais na exploração do negro e do índio. A dor do negro e do índio não é vitimismo. O racismo fere, desequilibra e mata.
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Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.
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